Produção de Leite Orgânico

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*Carlos Renato Tavares de Castro, *Maria de Fátima Ávila Pires e *Luiz J. Aroeira

Leite orgânico é o produto da pecuária leiteira orgânica, que se baseia nas premissas de ser uma exploração economicamente viável, ecologicamente correta e socialmente justa.  Nesse tipo de exploração, além de os animais serem criados de forma saudável, sem a utilização de antibióticos, hormônios, vermífugos, promotores de crescimento, estimulantes de apetite, uréia e demais aditivos não autorizados, é necessário que o pecuarista esteja compromissado com a preservação ambiental e proporcione adequadas condições de trabalho aos seus empregados, sempre visando a excelência do produto a ser obtido.  O leite orgânico difere daquele obtido na pecuária convencional por não conter resíduos químicos de qualquer espécie, possuindo mesmo sabor e valor nutritivo, podendo ser consumido puro, sob a forma de lactoderivados ou incorporado a outros produtos alimentícios.  Embora sua produção não seja direcionada a um público específico, seus consumidores são, em geral, bem informados, possuem consciência ecológica e buscam a qualidade dos alimentos.  Esse tipo de leite possui valor agregado e, conseqüentemente, custo final mais elevado, restringindo seu consumo diário a uma parcela da população com maior poder aquisitivo. Existe uma tendência de mudança deste cenário a partir da disponibilização de tecnologias que irão contribuir para redução no custo de produção, aumento da oferta do produto no mercado e consequentemente redução do preço do leite orgânico nas prateleiras.

O sistema orgânico de produção não é caracterizado somente pela troca de insumos químicos por insumos orgânicos, biológicos e ecológicos, visto o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) estabelecer uma série de procedimentos para que o leite de uma propriedade seja considerado orgânico.  Tais procedimentos regulamentam a alimentação do rebanho, instalações e manejo, escolha de animais, sanidade e até o processamento e empacotamento do leite. 

Embora o MAPA determine as normas para a produção orgânica, há necessidade de certificação desses produtos por meio de empresas específicas, de reputação ilibada, que conferem um selo ao produto, atestando-o como sendo orgânico.  A Instrução Normativa 007/1999, de 17/05/1999, dispõe detalhadamente sobre as normas de produção, tipificação, processamento, envase, distribuição, identificação e certificação da qualidade para os produtos orgânicos de origem vegetal e animal, na qual são detalhadas as etapas de conversão e transição das propriedades rurais que os produzem.  Há diversas certificadoras no Brasil e seus endereços podem ser obtidos na Internet em sites relacionados à produção orgânica de alimentos.

O selo de certificação de um alimento orgânico fornece ao consumidor muito mais do que a certeza de estar adquirindo um produto isento de contaminação química, garantindo, também, que esse é resultante de uma atividade agropecuária capaz de assegurar a manutenção e sustentabilidade do ambiente natural, proporcionando qualidade de vida para quem vive no campo e nas cidades.  Assim, o selo que certifica um produto como sendo “orgânico” é o símbolo não apenas de produtos isolados, mas também de processos mais ecológicos para se produzir alimentos.

A Embrapa Gado de Leite, embora não produza leite orgânico, vem desenvolvendo ações que enfocam dois temas prioritários nas pesquisas concernentes à sua produção: a alimentação e o controle sanitário do rebanho. 

Em um sistema de produção de leite orgânico, como em qualquer sistema pecuário, recomenda-se que a alimentação dos animais seja equilibrada e supra todas as suas necessidades.  Entretanto, de acordo com as exigências das Certificadoras, 85% da matéria seca consumida pelo rebanho deve ser de origem orgânica e para tanto se recomenda que seja feito, na propriedade, o consórcio de gramíneas e leguminosas na pastagem, incentivando a diversificação de espécies vegetais.  Sugere-se a implantação de sistemas agroflorestais (silvipastoris ou agrossilvipastoris), nos quais leguminosas arbóreas e/ou arbustivas, fixadoras de nitrogênio, sejam associadas a cultivos agrícolas ou pastagens.  Recomenda-se que a área da propriedade destinada à pecuária seja mantida, alternadamente, com pastagem ou com cultivos e ainda que sejam cultivados bancos de proteínas, cercas vivas e outras alternativas para a produção de forragem.

Os sistemas silvipastoris são imprescindíveis em um sistema orgânico de produção de leite, possibilitando a correta alimentação do rebanho, e viabilizando a aplicação dos princípios de respeito e conservação da natureza, em conformidade com a legislação vigente.  As árvores propiciam sombra para o gado, contribuindo para o conforto animal, além de auxiliarem na conservação do solo, evitando erosões.  Os sistemas silvipastoris multiestrato, que abrigam na mesma área árvores, arbustos, gramíneas e leguminosas rasteiras, proporcionam alternativas de alimentação para os animais durante o ano inteiro, com a vantagem adicional de a sombra das árvores possibilitar a produção de forragem de melhor qualidade durante a época seca do ano.

São recomendadas pastagens mistas de gramíneas, leguminosas e outras plantas, buscando maximizar a biodiversidade e evitando-se as monoculturas de forrageiras.  As pastagens devem ser manejadas, preferencialmente, de forma rotativa, com divisão de piquetes, visando manter o solo coberto e evitando o pisoteio excessivo, adotando-se, sempre que possível, o rodízio de animais que possuam exigências e hábitos alimentares diferenciados (bovinos, eqüinos, ovinos, caprinos e aves).  As queimadas regulares, a superlotação dos pastos, o uso de agrotóxicos e a adubação mineral de alta concentração e solubilidade, como a uréia, sulfato de amônia, superfosfatos e cloreto de sódio, são proibidos.  No entanto a legislação permite o uso eventual de sulfato de potássio e recomenda a prática da calagem, a aplicação de fertilizantes orgânicos, estercos, desde que oriundos de exploração orgânica, adubação verde, incorporação de restos culturais, cascas e cinzas.

O controle sanitário do rebanho leiteiro orgânico deve se basear no uso de produtos homeopáticos, fitoterápicos e na acupuntura, sendo obrigatórias as vacinas previstas na legislação e recomendadas a administração daquelas que visam ao controle das doenças mais comuns em cada região.

A adoção de estratégias de manejo do ambiente possibilita reduzir o nível de infestações por carrapatos, uma vez que 95% desses ácaros em uma propriedade se encontram nas pastagens, possibilitando controle mais eficiente com menor número de tratamentos.  Dentre as medidas mais eficazes, destacam-se o rodízio de pastagens com descanso de pelo menos 30 dias por piquete e a concentração das medidas de tratamentos nos meses mais quentes do ano, período desfavorável ao desenvolvimento do carrapato.  A escolha de animais mestiços para compor o rebanho também contribui para elevar a eficiência do controle, uma vez que os bovinos com maior grau de sangue indiano são mais resistentes a endo e ectoparasitas.  Esta resistência é potencializada quando os animais são mantidos em perfeitas condições de saúde, com alimentação adequada e em ambiente higienizado.  O mercado já dispõe de alguns produtos homeopáticos e também de fitoterápicos para o controle de carrapatos, destacando-se o extrato de eucalipto e a rotenona (substância derivada da raiz do timbó) como os mais promissores.  Uma vacina produzida no Brasil está em fase de finalização de testes e a expectativa é de que em breve esteja disponível para os produtores.  O controle biológico dos carrapatos por fungos e nematóides também está sendo pesquisado e será uma alternativa viável em um futuro próximo.

O controle das mastites, independentemente do medicamento utilizado, deve ser sempre acompanhado das medidas preventivas usuais de forma a garantir a eficácia do tratamento.  Há uma série de medidas curativas como homeopatia, terapia do barro e fitoterapia que podem ser usadas como tratamento alternativo aos antibióticos embora, em muitos casos, ainda careçam de comprovação científica.  Algumas ervas medicinais como a camomila, tansagem, babosa (espécie não tóxica para os animais), dentre outras, são recomendadas para o tratamento da mastite, bem como o tratamento adjuvante com massagem do úbere utilizando pomadas de própolis, tansagem e/ou belladona.  Para antes e após ordenha recomenda-se a solução de iodo glicerinado + linhaça.  A homeopatia está se tornando a principal terapia nos sistemas orgânicos de produção de leite e pesquisas estão sendo realizadas no sentido de comprovar a eficiência dos tratamentos homeopáticos.

Embora o leite orgânico constitua um promissor subnicho de mercado, com crescimento anual de 30%, ainda é um produto raro e de insignificante produção frente aos 25 bilhões* de litros de leite convencional produzidos no país em 2006.  A despeito das iniciativas isoladas, a produção de leite orgânico no Brasil ainda é incipiente, fato que aliado ao pouco interesse das empresas receptoras em processá-lo explicam o baixo volume oferecido à população.  Ainda é muito reduzido o número de propriedades que exploram a pecuária leiteira orgânica certificada, havendo produção nas regiões Sul (Sítio Pé da Serra, em Novo Hamburgo – RS), Sudeste (Sítio Jatobá, em Ouro Fino – MG; Sítio Caipirinha, em Botucatu – SP; Fazenda Vale das Palmeiras, em Teresópolis – RJ), Nordeste (Fazenda Acauã, em Nossa Senhora da Glória – SE; Fazenda Tamanduá, em Patos – PB; Fazenda Timbauba, em Cacimbinhas – AL), além de alguns poucos laticínios certificados (Laticínios Taigor, em Uberaba – MG; Laticínio Valle D´oro, em Registro – SP;  Mocó Agropecuária Ltda, em Patos -  PB) 

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Pesquisadores da Embrapa Gado de Leite.
Rua Eugênio do Nascimento, 610 – Dom Bosco
36038-330 – Juiz de Fora – MG
Tel.: (32) 3249 4700 – Fax.: (32) 3249 4701
*Respectivamente castro@cnpgl.embrapa.br  e fatinha@cnpgl.embrapa.br
*Pesquisador aposentado da Embrapa Gado de Leite  ljmaroeira@yahoo.com.br

      

 

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