A REALIDADE SE IMPÔS

*Por Marcello Brito

A visita do presidente Bolsonaro à China e aos países árabes – Emirados Árabes, Qatar e Arábia Saudita, bem como, a participação do ministro da Economia, Paulo Guedes no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), são sinais de um realinhamento de posições do governo na área externa.

Esperamos que algo semelhante também aconteça no relacionamento do Brasil com a Argentina, importante parceiro comercial. Nesse realinhamento pesa ainda a situação de outros países com os quais o Brasil se relaciona, como a própria China, o maior comprador dos nossos produtos agrícolas.

Em Davos, a preservação ambiental foi um dos eixos da reunião do Fórum neste ano, e a Amazônia foi um foco de preocupação do encontro. A elite empresarial global fez elogios ao Brasil e manifestou confiança na recuperação econômica, mas a polarização política e os indicadores ruins na área ambiental são fatores negativos que pesam nas decisões de investimentos de longo prazo.

A preocupação com o meio ambiente está crescendo. Isso não é uma moda, mas a nova dinâmica dos negócios internacionais. Eventos climáticos atípicos se amontoam mundo afora, apesar de ainda ser cedo para associar esses eventos às mudanças climáticas, mas o registro é um sinal amarelo.

De acordo com cientistas que estudam a Amazônia há décadas, a ciência deve procurar soluções e não apenas falar de riscos. Devemos encontrar os caminhos para uma economia que mantenha a floresta em pé, que gere produtos com valor econômico para o presente e o futuro superior ao da destruição da floresta. Essa mensagem ficou clara no evento “Converge Capital”, realizado no Rio de Janeiro em fevereiro, que reuniu bancos, fundos de investimentos e family Offices nacionais ou com atuação no Brasil. A mensagem foi muito clara, há sim dinheiro para investimentos, mas nossos clientes subiram muito a barra no que tange a comportamentos e compromissos no campo socioambiental.

Desde 1992, quando sediou a primeira conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas (Rio92), o Brasil se apresentava como liderança na defesa de metas globais ambiciosas de redução de emissões de gases poluentes. Apesar de sempre ter feito pressão para que os países desenvolvidos assumissem uma fatia maior da responsabilidade e compensassem financeiramente nações emergentes pela contribuição que fizessem, os governos brasileiros, de lá para cá, sempre adotaram um discurso de compromisso ambiental. Isso ajudou a consolidar o chamado soft power brasileiro. Esse termo se refere ao uso de valores políticos e culturais — sem uso de coerção, poder econômico ou militar — para tentar exercer influência em decisões internacionais por meio de sua capacidade de persuasão.

Especificamente no campo ambiental, o papel de liderança do Brasil colocou o país em posição de destaque em negociações com grandes potências, como União Europeia e Estados Unidos. Esperamos que os últimos movimentos e acontecimentos no campo econômico e ambiental sejam positivos para esse realinhamento do país na direção do equilíbrio, da sensatez e do diálogo. E que essa postura ajude a melhorar a imagem do país no exterior, contribua para as negociações de acordos comerciais e para o nosso setor exportador.

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