Algumas considerações sobre pecuária orgânica no Brasil, na Argentina e na Europa

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O cuidado exigido na pecuária orgânica é bem diferente da convencional. Adquirindo a carne orgânica, além do consumidor saber que está com um alimento livre de agrotóxicos e hormônios sintéticos, ele também proporciona qualidade de vida aos animais. Segundo a veterinária Maria do Carmo Arenales, o boi orgânico deve ser criado em pasto sem agrotóxico e adubação química, tratado com medicamentos homeopáticos. A adubação a pasto é feita com esterco dos próprios animais. O uso de sal mineral e inseminação artificial são permitidos, mas os antibióticos, proibidos. A vacinação contra aftosa é obrigatória por lei.

butao-artigoÉ importante não confundir o boi orgânico com o chamado “boi verde”. Apesar de também valer-se da criação a pasto, como nos sistemas agroecológicos, as semelhanças terminam aí. No cultivo do “boi verde”, o uso de adubos sintéticos solúveis, de antibióticos e medicamentos alopáticos é permitido. E a suplementação alimentar feita no confinamento se vale de plantas (milho, cana-de-açúcar, por exemplo) originadas em sistemas convencionais de produção.

Marco Hoffmann, que fornece consultoria para pecuária orgânica através de sua empresa Sustentagro, no Rio Grande do Sul, diz que a expectativa da produção pecuária orgânica brasileira em 2001 será basicamente para exportação. Em 2002, talvez já exista venda para mercado interno. Ele explica que para o gado convencional entrar no sistema orgânico, é necessário que ele seja comprado com até oito meses. Os custos mais altos estão na construção do frigorífico, apesar do investimento ser pequeno no caso de uma adaptação de um convencional. Além dos cuidados com higiene e limpeza no abate, a morte deve ser rápida para evitar o estresse.

A pecuária orgânica no Brasil ainda está começando, havendo um grande potencial de crescimento.

A pecuária orgânica no Brasil ainda está começando, havendo um grande potencial de crescimento.

No Mato Grosso do Sul, no município de Nova Andradina, o já tradicional Frigorífico Independência, iniciou projeto de pecuária orgânica, a cerca de um ano, com a finalidade de exportar para a União Européia. A certificação será pelo IBD e o primeiro abate foi marcado em junho. A empresa já possui mais de 5000 bois cadastrados em tratamento orgânico.

A Agroparr Alimentos, em Sentinela do Sul, Rio Grande do Sul, também já tem um projeto para criação de gado orgânico. Segundo o diretor da empresa, Vladimir Vencato, a expectativa é que a certificação pelo IBD saia até a metade do ano. A meta é comprar cerca de cem cabeças do gado Braford ainda jovens. Serão aproveitados 180 hectares da propriedade como pasto para os animais. Vencato considera muito difícil quantificar valores quanto à expectativa de faturamento ou preços no mercado interno, onde também pretendem comercializar. “Temos uma idéia apenas no exterior, mas é impossível prever valores para o Brasil.”, afirma. Não haverá investimento em frigorífico, que deve ser utilizado através de parcerias

Enquanto no Brasil a pecuária orgânica está nascendo, na Argentina a exportação certificada ocorre desde 1995. A Eco Pampa, em Bella Vista, na província de Buenos Aires, iniciou seus trabalhos exclusivamente com carne orgânica em 1994. A certificação é pela Argencert, reconhecida pela União Européia. A empresa vende sete tipos de cortes, inclusive para supermercados. Outro produtor, também certificado pela Argencert, é a Estancia La Josefina, localizada nos pampas dentro da “cuenca” Rio Salado. Tem 550 hectares de solo orgânico, onde cultiva várias culturas, e cria o gado Aberdeen Angus. Para os produtores argentinos, o Brasil seria um excelente mercado, se não fosse os baixos preços que os compradores estariam dispostos a pagar, comparando-se com o capital que Europa e EUA dispõem. Segundo executivos argentinos, até o momento, o país vizinho vê como concorrente à carne orgânica Uruguai e Austrália.

Na Europa, a crise da “vaca louca” ainda não teve solução e os produtores europeus vêem suas perspectivas de vendas caindo cada vez mais. Na Alemanha, discute-se a necessidade de abater todos os animais com menos de 30 meses, ou seja, aproximadamente 400 mil cabeças. A nomeação de Renata Kunast, para ministra da Agricultura da Alemanha, e as medidas tomadas em favor do orgânico, foram certamente motivadas pela crise da doença da “vaca louca”.Esta doença não é um fator isolado e, sim, um sintoma dessa mentalidade de considerar os animais “mecanismos” e não “organismos”. Rações e tratamentos inadequados aumentaram o estresse do animal, aumentando sua vulnerabilidade às doenças.

Este ano, dois eventos irão dar atenção à pecuária orgânica no Brasil, ambos em maio. O IV Congresso de Buiatria, que será realizado em Campo Grande, Mato Grosso do Sul e a Zootec 2001, em Goiânia, com palestra do presidente da empresa argentina Eco Pampa.

Para mais detalhes desta notícia sobre a Alemanha, clique aqui
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