A SEMENTE:

O Alicerce da Agricultura Agroecológica.  

Sementes na Agricultura Agroecológica.

Até um período relativamente recente, o único método de seleção dirigida era coletar as sementes daqueles indivíduos de uma população que mostravam uma ou mais características desejáveis, como potencial de alto rendimento ou resistência a doenças, e usar aquelas sementes para plantar a próxima safra. Este método é chamado de seleção massal, e produz um deslocamento gradual na freqüência relativa de uma ou mais características de uma população de plantas da mesma espécie. Foi através deste método, por exemplo, que as populações indígenas da América Latina foram selecionando as plantas de milho que tinham mais grãos na espiga, obtendo as plantas que hoje conhecemos.

A soja se auto-fecunda

A soja se auto-fecunda

Através de métodos de seleção massal, produtores em todo o mundo desenvolveram variedades chamadas crioulas. Elas são adaptadas às condições locais e, ainda que uma variedade crioula possua características que a diferenciem em relação às demais variedades, ela possui, internamente, uma maior variabilidade genética quando comparada às variedades obtidas por outros métodos. A seleção massal funciona da mesma forma tanto para plantas que se auto-fecundam, como ocorre com a soja, quanto para plantas que cruzam com
outras, como acontece como o milho, por exemplo.  

Este método mais antigo e tradicional de seleção dirigida envolve, ao mesmo tempo, o organismo da planta e a seleção a campo. Apesar de ser um processo relativamente lento e mais variável em seus resultados, tem a vantagem de ser mais semelhante à seleção natural na forma como ocorre em ecossistemas naturais. Características envolvendo adaptação às condições locais são retidas, juntamente com outros aspectos mais diretamente desejáveis de rendimento e desempenho, mantendo-se também a variabilidade genética.

Desta forma, as variedades crioulas atendem a um dos princípios básicos da Agroecologia que é o de desenvolver plantas adaptadas às condições locais da propriedade, capazes de toleram variações ambientais e ataque de organismos prejudiciais. Outro aspecto importante consiste na maior autonomia do agricultor, que pode coletar as sementes destas variedades e replantá-las no ano seguinte, adquirindo maior independência do mercado de insumos e gerando um material que com toda sua variabilidade genética se torna cada vez mais vigoroso e adaptado ao seu tipo de solo e clima.

Variedade de milho batizada de “Sol da Manhã” 

cornUm exemplo brasileiro do potencial dessa prática, foi desenvolvido no Rio de Janeiro. A Embrapa -Agrobiologia, em parceria com agricultores assentados, obteve uma variedade de milho batizada de “Sol da Manhã”, capaz de produzir cerca de 4 toneladas por hectare (a média nacional é de 2t /ha) sem a necessidade de adubos sintéticos ou agrotóxicos e num solo ácido (desfavorável à cultura). Perfeitamente adaptada às condições locais a variedade produzida sob manejo agroecológico se tornou um opção lucrativa para os agricultores pela boa produtividade e pela economia ao não exigir os insumos tradicionais do manejo convencional (adubos altamente solúveis e agrotóxicos).

Contudo, a produção de sementes de variedades voltadas à agricultura orgânica ainda é uma atividade muito pouco desenvolvida no Brasil, forçando muitos produtores agroecológicos a adquirirem sementes de plantas cultivadas em manejo convencional. Isso significa que, embora tais sementes não tenham recebido “banhos” de agrotóxicos (como ocorre com sementes tratadas para plantio convencional) elas vieram de plantas que foram cultivadas em sistema convencional, ou seja, que receberam fertilizantes altamente solúveis e agrotóxicos. Além disto, grande parte destas sementes são híbridos ou variedades obtidas por outros métodos de melhoramento que não a seleção massal apresentando, portanto, pouca variabilidade genética e maior suscetibilidade ao ataque de insetos prejudiciais e doenças, exigindo do agricultor um trabalho maior para equilibrar a saúde dessas plantas.

clique007A Instrução Normativa n0 007 de 17/05/ 1999, quando o mercado de sementes agroecológicas não oferece este material, autoriza o uso de sementes vindas de sistemas convencionais, desde que estas passem pela inspeção de uma entidade certificadora e que não sejam transgênicas.Atualmente, no Brasil quem produz e vende sementes agroecológicas são a Cooperativa Regional dos Agricultores Assentados Ltda.
(Cooperal) de Bagé, Rio Grande do Sul e a empresa paulista “Sakama”
que vende sementes.

A soja se auto-fecundaPara quem deseja coletar e armazenar sementes de variedades crioulas que existem em sua região e multiplicá-las para as futuras gerações, podem seguir as dicas de Jude e Michel Fanton, autores do livro Seed Saver’s Handbook (Manual do Coletor de Sementes), que sugerem alguns grupos de sementes para coletar e armazenar para futuros plantios:

a) Sementes antigas de muitas gerações: São sementes que foram conservadas através das gerações pelo mundo afora, passando dos avós para os filhos, dos vizinhos para outros vizinhos e assim por diante. Os índios norte-americanos da tribo “Hopi” guardaram sementes de milho por muitas gerações. A espécie é mais forte, resistente a pestes e mais saborosa que os híbridos. Estas sementes só existem hoje devido ao cuidado que as gerações anteriores tiveram com elas.

Índios norte-americanos guardaram sementes de milho por muitas gerações

Índios norte-americanos guardaram sementes de milho por muitas gerações

b) Sementes de variedades locais:

São sementes de plantas cultivadas por muitos anos em uma determinada região. Conversar com as famílias mais antigas do local é uma forma de obter informações dos possíveis locais onde encontrar estas sementes.

c) Sementes de variedades que não estão mais disponíveis comercialmente:

Sementes de variedades tradicionais que antes eram vendidas por alguma empresa e deixaram de serem lucrativas. Uma boa estratégia é contactar agricultores familiares do local e feirantes sobre a possibilidade de conseguir sementes desse tipo, inclusive variedades exóticas ao paladar.

colono1

Colonizadores trouxeram sua gastronomia

d) Sementes de variedades imigrantes:

Estas sementes fazem parte daquele grupo trazido pelos imigrantes e colonizadores, os pioneiros da região, que trouxeram sua gastronomia. Asiáticos e europeus trouxeram as variedades adaptadas ao clima de origem e sabor de suas culturas, que posteriormente se aclimataram em nosso país. Procurar lojas especializadas e feiras étnicas é uma forma de se tentar obter esse material.

e) Sementes históricas:

São sementes que possuem um significado histórico na região em que eram multiplicadas e plantadas. Geralmente, estão associadas a um alimento preparado para um determinado evento. Estas sementes são muito apropriadas para se usar em práticas de educação ambiental.

 

Por fim, vale acrescentar que o principal acervo para se coletar e armazenar estas sementes no Brasil é o próprio povo. Iniciativas como a do “Clube da Semente” www.clubedasemente.org.br no Brasil, existem para demonstrar a importância de se coletar sementes de variedades com risco de extinção e assegurar a existência de várias espécies vegetais. Espécies que poderão constituir a base de uma agricultura agroecológica que conserve a biodiversidade num sistema de produção de alimentos em harmonia com o ser humano.

Fornecedores de sementes orgânicas certificadas:
Sementes Sakama (certificado pelo IBD): www.sementesakama.com.br - sementes de hortaliças Arlindo Getúlio Golfetto (certificado pelo IBD): fazendabionego@terra.com.br - sementes de crotalária e soja

Fontes:

Livro “Agroecologia”, Stephen R. Gliessman, Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2000.
Revista “Permacultura – Brasil”, ano 1, n0 01, primavera de 1998.
Boletim “Agroecológico”, ano 3, n0 12, julho de 1999.

 

Clique aqui para voltar à primeira parte de
“A SEMENTE: o Alicerce da Agricultura Agroecológica.

<< voltar