CAFÉ: O FUTURO PASSA PELA PRODUÇÃO ORGÂNICA

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DAROLT, Moacir Roberto
Engenheiro Agrônomo, Doutor em Meio Ambiente, Pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), Ponta Grossa, C.Postal 129, CEP 84001-970, Fone/Fax: (42)229-2829 e-mail: darolt@cce.ufpr.br

Originário dos altiplanos da Etiópia, o cafeeiro é uma planta tropical que cresce em região de altitude, em ambiente sombreado típico de climas úmidos de floresta tropical. Portanto, é de se esperar que os manejos que se aproximem do centro de origem da planta dê os melhores resultados. No Brasil, as variedades atuais foram sendo melhoradas e adaptadas para produção ao pleno sol. Entretanto, o sombreamento parcial em algumas regiões pode aumentar a produtividade da cultura e a diversificação requeridos em sistemas orgânicos.

No Brasil a escolha da melhor variedade para o sistema orgânico dependerá da região e de características internas de cada propriedade. Resultados de pesquisa do IAPAR (SERA, 2000) indicam que para altitudes menores seria mais desejável o uso de variedades precoces e de porte grande. Em altitudes maiores, pode-se utilizar cultivares de pequeno porte ou compacto. Em áreas de ventos fortes preferir cultivares de porte compacto ou pequeno. Na verdade, não existe uma receita pronta, por isso o melhor remédio é um planejamento que privilegie a diversificação varietal, plantando cultivares precoce, semi-precoce, semi-tardia e tardia, fator que proporcionará facilidade na colheita no ponto ideal e diminuição de custos em função do escalonamento da colheita.

De acordo com PEDINI (1998) um manejo intermediário – que associe vantagens do sistema tradicional com ruas largas (maior diversificação e possibilidade de consorciação) e adensado (melhor cobertura de solo e controle de invasoras) – algo em torno de 2,5 a 3,0 por 1,0 a 1,5 metros, combinado com a arborização do cafezal poderia ser uma boa alternativa para os produtores orgânicos.

CAFÉ PROTEGIDO: Arborização parcial dá bons resultados

Pesquisa realizada pelo Centro de Ecofisiologia e Biofísica, do Instituto Agronômico de Campinas (FAHL, 2000), indica que o café pode ser classificado como uma espécie de sombra facultativa. Os resultados mostram que numa região mais quente, numa altitude menor, recomenda-se a arborização, para reduzir os picos de temperatura, reduzir a média máxima, além de elevar as temperaturas mínimas e diminuir o déficit de água. Em regiões com risco de incidência de geadas, os resultados do sombreamento são animadores. Em lavouras em fase de implantação – como mostra a experiência do colega da EMATER-PR, Eng. Agr. Renzo Hugo – mudas de guandu plantadas nos dois lados da muda de café, proporcionaram uma elevação de até 40 acima do ambiente desprotegido, durante a noite, protegendo eficientemente contra geada.

Outra constatação é a de que a arborização deve ser parcial, para evitar redução de luminosidade e competição por água e nutrientes. Experiências práticas com espécies como a seringueira, acácia, ingazeiro, abacateiro, pupunha, banana, côco têm mostrado bons resultados. Segundo BASSO (1999), pode-se diminuir a insolação em 20-30% com seringueiras plantadas a cada 12 a 15 linhas de café, bem como aumentar a produtividade em torno de 20 %. Entretanto, as respostas ainda são insuficientes e é preciso mais investimento em pesquisa, para descobrir as melhores espécies para arborização, espaçamentos, grau de sombreamento mais adequado, influências do clima (altitude, latitude) segundo as regiões.

Em cafeeiros plantados em ruas largas (2 x 4 e 3 x 4 metros) é possível trabalhar com culturas intercalares como o feijão carioquinha ou amendoim por exemplo que – além da produção, ajudam a conservar o solo e funcionam como um adubo verde devolvendo nitrogênio para o solo. Alguns cereais como o arroz e milho, não são recomendáveis para a parceria pois concorrem em nitrogênio e água o que acaba enfraquecendo o cafeeiro. Sistemas extremamente adensados também podem limitar o crescimento do mato na rua e o consórcio com outras culturas, diminuindo assim a biodiversidade, fundamental para o equilíbrio de pragas e doenças e manutenção da fertilidade do solo.

NUTRIÇÃO: adubação verde baixa custo, é fácil de implantar e aumenta produtividade

Em regiões de terras naturalmente férteis não é difícil conduzir o plantio de café orgânico. Portanto, o segredo está em melhorar a fertilidade do sistema e isso pode ser feito elevando a quantidade de biomassa.

cafeadub12Uma das formas mais baratas de aumentar a biomassa da cultura do café orgânico é por meio da utilização de adubos verdes, que podem trazer uma série de benefícios que resultam em maiores produtividades e menores custos como: maior cobertura de solo; economia de capina, devido a menor incidência de invasoras; maior equilíbrio nutricional, sobretudo em relação ao nitrogênio; além do aumento da matéria orgânica do solo.
Adubo verde na linha do cafeeiro, ajuda na melhoria da fertilidade  do sistema, baixa custos e melhora produtividade.

Segundo pesquisa do Instituto Agronômico do Paraná – IAPAR (CHAVES, 2000a), a adubação verde combinada com outros adubos orgânicos (estercos de animais, húmus de minhoca, compostagem, etc.) proporciona maior equilíbrio à nutrição nitrogenada, reduz a incidência da doença causada por Cercospora coffeicola e também reduz eficientemente a mortalidade dos ramos produtivos.

Estudos do IAPAR, durante 8 anos, comparando diferentes tipos de adubação mostraram que o uso exclusivo de leucena como adubo verde aplicada ao solo como fonte de nutrientes, proporcionou ganhos consideráveis de produção. Em relação à área não adubada – que representa a produtividade média do pequeno cafeicultor (4-5 sacas/hectare), o aumento foi de 340%. Os dados do IAPAR (CHAVES, 2000a), mostraram que o adubo verde adicionou o equivalente a 130 kg/ha de nitrogênio para o cafeeiro, o que resultou em um aumento de produtividade superior a média brasileira que não passa de 12 sacas/ha. Ainda vale lembrar que o nitrogênio é o nutriente mais exigido pela cultura e o mais caro. Por isso, a adubação verde contribui para tornar o agricultor orgânico mais independente.

Alguns critérios devem ser observados para escolha dos adubos verdes a serem utilizados, como: tipo de crescimento, característica da cobertura e ciclo vegetativo do adubo verde. Plantas de crescimento rasteiro (não trepadoras), cobertura densa e ciclo curto a mediano podem facilitar o manejo e são mais desejáveis na produção orgânica. Veja na tabela 1, algumas sugestões para utilização dos adubos verdes.

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Segundo as pesquisas do IAPAR o ideal é plantar simultaneamente nas linhas de café, adubo verde de ciclo curto (p. ex. mucuna anã, crotalaria breviflora) com adubo verde de ciclo longo (p. ex. mucuna preta, amendoim cavalo, guandu) invertendo-se a posição das espécies no ano seguinte. Outra experiência que vem sendo utilizada na Estância Filgueira, no município de Dois Córregos – SP, combina o plantio de dois ciclos de leguminosas (o primeiro, no início das águas e o segundo, entre janeiro e fevereiro), associado com húmus de minhoca na linha que não recebe adubo verde. Assim, depois da roçada, a linha que estava com adubação verde irá receber o húmus de minhoca e vice-versa.

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Para equilibrar os outros elementos necessários à nutrição do cafeeiro orgânico pode-se ainda utilizar fertilizantes minerais pouco solúveis, de acordo com a análise de solo e da folha. Como corretivos de solo e fonte de cálcio e magnésio, podem ser utilizados os calcários calcíticos e magnesianos espalhados a lanço nas ruas em quantidades pequenas (até 1,5 ton/hectare) para evitar desequilíbrios nutricionais. Para suprir o fósforo os fosfatos naturais de baixa solubilidade são uma boa alternativa. No caso do potássio, além do uso da própria casca do café, que é rica em potássio, pode-se utilizar cinzas vegetais que são uma excelente alternativa (foto ao lado).

Algumas rochas minerais moídas fornecem vários elementos simultaneamente, como é o caso pó de rocha MB4, que vem sendo utilizado com bons resultados na lavoura cafeeira orgânica. No tocante aos microelementos, tem-se procedido a sua utilização na forma quelatizada, por meio de fermentação da matéria-prima em solução de água, esterco e aditivos energéticos. Formulações caseiras como os biofertilizantes supermagro e biogel têm mostrado bons resultados, por fortalecerem o equilíbrio da planta.

PRAGAS E DOENÇAS: planta equilibrada tem defesa própria

É interessante observar como um cafezal bem equilibrado nutricionalmente, apresenta uma defesa própria contra o ataque de pragas e doenças, o que reforça a idéia de que o princípio básico é a prevenção. Outro ponto importante é alimentar o solo e fortalecer a fertilidade do sistema com matéria orgânica, mantendo o solo sempre coberto, o que reduz a necessidade de controles. No manejo orgânico é possível conviver com algumas doenças, desde que em níveis que não provoquem danos econômicos. Todavia, no caso de um ataque de doenças fúngicas como ferrugem (Hemileia vastatrix) e cercosporiose (Cercospora coffeicola), por exemplo, o uso de sulfato de cobre – permitido em agricultura orgânica, tem apresentado resultados satisfatórios, quando combinado com uma boa adubação orgânica. Para combater a broca (Hypotenemus hampeii) a melhor saída também é a prevenção, não deixando grão no pé após a colheita. O bicho mineiro (Perileucoptera coffeella), que come as folhas do cafeeiro, pode ser controlado se a planta estiver bem equilibrada, porém o uso de inimigos naturais (crisopídeos e vespas), repelentes ou extratos de vegetais inseticidas também apresentam bons resultados.
Estudo realizado por REYDON et.al. (1999), mostrou que o custo de produção para controle de pragas e doenças usando um tratamento alternativo (a base de extrato de composto enriquecido com microorganismos, chamado de EPN-II e calda bordaleza) foi cerca de 60% menor do que o tratamento convencional normalmente utilizado.

O MATO COMO UM AMIGO

Passar a conviver com o mato, talvez seja mais um empecilho cultural do que técnico e econômico. Culturalmente, o mato é associado com sujeira e o produtor que não deixa a lavoura no limpo é considerado “relaxado”. Tecnicamente o mato quando manejado corretamente pode ser útil no controle da erosão, na conservação e umidade do solo, na formação de matéria orgânica, como refúgio para inimigos naturais e no controle das próprias invasoras por suas propriedades alelopáticas. Economicamente, evita gastos desnecessários com capinas e diminui o custo final de produção. Por isso, o manejo do cafeeiro orgânico pode ser realizado apenas por meio de roçadas (foto abaixo).

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Detalhe do manejo do mato e adubo verde em lavoura de café orgânico

COLHEITA: diversificação varietal reduz custos e melhora qualidade do produto

O ponto ideal para uma colheita de alta qualidade é quando a maior parte dos frutos estão no estado “cereja”, com um mínimo de frutos verdes na planta. Como a maturação ocorre de forma desuniforme, normalmente se colhe o café no “pano”, fazendo a colheita seletiva dos frutos maduros. Porém, na prática muitas vezes existe dificuldade para seguir este processo em função da disponibilidade de mão-de-obra, lavador/descascador e condições de clima.Neste sentido, a alternativa seria um bom planejamento na escolha das variedades. Como já comentamos não há receitas na escolha da variedade, porém estudos do IAPAR recomendam a diversificação varietal por precocidade de maturação dos frutos na propriedade cafeeira visando reduzir o custo da colheita e o risco de perda de qualidade do café como mostra a tabela abaixo.

TABELA  – EXEMPLO DE ÉPOCA DE MATURAÇÃO DE CULTIVARES DE CAFÉ NO PARANÁ

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Fonte: Adaptado de IAPAR (SERA & GUERREIRO, 2000)

Segundo os trabalhos de SERA & GUERREIRO (2000) do IAPAR, este procedimento economiza cerca de 25% nos custos com a colheita do café, distribuindo a disputa por mão-de-obra e economizando na necessidade da infra-estrutura de processamento e secagem de café.

CAPACITAÇÃO: aprendendo a produzir

Para quem pretende fazer a conversão ou iniciar uma lavoura de café orgânico o primeiro passo é buscar informações e fazer um bom planejamento. Um bom começo é visitar experiências de sucesso. Alguns endereços de produtores e empresas que já estão produzindo organicamente podem ser conseguidos nos sites das duas principais certificadoras nacionais (Instituto Biodinâmico – IBD / www.ibd.com.br) e Associação de Agricultura Orgânica – AAO / www.aao.org.br). A AAO têm promovido cursos regulares sobre técnicas de produção de café orgânico (organica@uol.com.br).

Outra referência interessante para quem quiser se filiar e discutir o assunto é a Associação de Cafeicultura Orgânica do Brasil (ACOB), cujo contato pode ser realizado através do e-mail (spedini@axnet.com.br).

Para quem desejar informações dos trabalhos do IAPAR, escreva para iapar@pr.gov.br solicitando prospectos sobre o “Modelo IAPAR” de café adensado.

 

REFERÊNCIAS CITADAS

BASSO, A .D. Sombreamento do cafeeiro: experimento, necessidade e resultados. Boletim Agro-ecológico. Ano III, N. 11, Maio, 1999. p. 15-16.
CHAVES, J.C.D. Benefícios da adubação verde na lavoura cafeeira. Folder IAPAR, Londrina, 2000a.CHAVES, J.C.D. Modelo para utilização de adubos verdes na cafeicultura. Folder IAPAR, Londrina, 2000b.
FAHL, J.I. “Sem sombra de dúvida…”. Agroecologia Hoje. Abril-maio, 2000. p. 19-20.
PEDINI, S. A produção de café orgânico. Boletim Agro-ecológico. Ano II, N. 09, Novembro, 1998. p. 7-8.
REYDON, B.P.; FIGUEIREDO,F.E.R..; ASSIS,R.L. Aspectos fitossanitários e econômicos de produção orgânica de café. In: AMBROSANO, E. (Coord.). Agricultura Ecológica. Guaíba: Agropecuária, 1999. p. 363-367.
SERA, T. Modelo de cultivares no “Modelo IAPAR” de café adensado. Folder IAPAR, Londrina, 2000.
SERA, T. ; GUERREIRO, A. Colheita escalonada varietal no “Modelo IAPAR”. Folder IAPAR, Londrina, 2000.

 

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